A escolha
Desta vez me pegaram num momento de fraqueza. Agüento bem pressões, mas o círculo estava se fechando. Em qualquer lugar que fosse, lá estava um chato pra me dizer; se quiser fazer isso, faça longe de mim.
Nunca pensei em sofrer censura nesta idade. Quem nesta altura do campeonato não sabe o que faz bem e o que faz mal? Sabia que poderia escolher até o que fosse pior pra mim, ainda mais depois de ter ouvido a frase (não sei onde): saúde provoca velhice.
Ter você depois do café da manhã, ou logo após o jantar dava um prazer tão grande, era quase um orgasmo.
- Abigail, não diga essas coisas! Sua neta vai ler esta crônica. Tá louca mulher?
Agora mais esta censura, mas não vou me controlar. Quero mais é que meus netos tenham o que falar de mim quando crescerem e forem fazer análise.
Tudo começou de um ano pra cá: meus amigos começaram, por influência médica, a abandonar o vício, daí um pulo pra se tornarem os maiores garotos propaganda contra o bendito.
Enquanto era só discurso eu conseguia driblar a situação expondo que meus queridos parentes e considerados que tinham morrido de câncer ou enfarte nunca fumaram ou beberam, exceto um. É claro! Só pra me contrariar.
Mas a história foi se agravando: o terraço da casa dos amigos virou fumódromo. Tinha agora que escolher namorado fumante, para evitar aporrinhação.
Adorava a frase de minha mãe, então com 88 anos, quando meu pai a censurava por tomar meio copo de cerveja no almoço de domingo:
- Chico, você não come, não bebe, não fuma, não também...: tá vivendo pra que, homem?
Escrito por Rail às 21h09
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Santa sabedoria, mulher inteligente.
Quando achava que já tinha me acostumado com tudo, surgiu a necessidade de engordar, pois eu estava parecendo ter chegado de Biafra. No meu caso, nada como uma boa preocupação para emagrecer.
Os amigos se assustaram, confessaram mais tarde que até pensaram em preparar um belo traje preto pra me acompanhar na cerimônia do fogaréu.
Foi quando o médico sentenciou:
- Os resultados do laboratório mostram que você está bem, mas se não engordar em um mês serei obrigado a fazer exames mais minuciosos.
E eu, uma mulher que enfrentou as maiores adversidades, mas que morre de medo de injeção, resolvi correr atrás da comida.
Aí passei a sofrer com a ditadura dos gordinhos.
Tente ir ao supermercado comprar comida que engorda: você fica igual uma louca procurando alimentos que não tenha esta informação: % sem gordura, produto light ou diet.
Passei a comer pão com geléia, creme de leite batido com açúcar, pizza, batata, refrigerante e muito, mas muito chocolate e resolvi apelar: larguei o cigarro.
Nada mudou. Percebo apenas que durmo menos horas e mais profundamente. Acordo cedo sem despertador, trabalho com prazer e sinto uma felicidade que irrita a maioria que está ao meu lado.
Comecei a cuidar dos vasos de flores que ganhei, as plantinhas morreram e renasceram, não sei se porque ando conversando com elas.
Ontem encontrei mamãe e ela que não mente nunca, me disse:
- Pare de engordar, já ta passando do ponto.
E o pior é que não sinto mais vontade de fumar.
Escrito por Rail às 21h06
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