Frio...fria
Noite de frio, muito frio em São Paulo.
Saio a 1:30 da madrugada da casa de Eleonora. O papo estava ótimo, regado a vinho com banho de calor da lareira.
Ligo o ar quente de meu carro, coloco o CD de Caetano e sigo meu caminho. Como todos os últimos seis meses, sozinha e bem acompanhada de mim mesma.
Estou chegando no cruzamento da Rua Venezuela com a Av. Brasil e vejo um garoto, até bem agasalhado com casaco e gorro, sentado numa mureta. Percebo que está chorando, o rosto coberto de lágrimas silenciosas.
Me aproximo, abaixo o vidro da janela do carro, faço um sinal para que venha pra perto de mim e pergunto o que está acontecendo.
Ele me mostra uma caixa, quase completa de chicletes e dropes e diz:
- Enquanto eu não vender tudo não posso ir pra casa.
- Quanto é?
- 18 reais
Eu, que nunca tenho dinheiro em minha bolsa, só talão de cheque e cartão, nesta noite carrego 20 reais.
- Tome o dinheiro e me prometa que vai pra casa.
Ele pega a nota e me entrega a caixa.
Nesse momento se aproxima um carro que pára ao meu lado. São três moças que, após se inteirarem do assunto, se prontificam a ajudar.
Nos despedimos e fico parada olhando pra ter certeza que o garoto foi embora.
Tristeza, miséria de vida. Uma criança de 10 anos num corpo de 8...
Eu não deveria me surpreender ou me angustiar, afinal todo o dia, em todos os lugares existe esta cena. Porque me incomoda tanto?
Entro em casa, telefono para a minha amiga pra avisar que cheguei e relato o ocorrido, na esperança de que vou me livrar deste sentimento de indignação. Ela ouve a história pacientemente e diz:
- Fingimento
- Claro que não!
- Como você é boba!
- Ele não viu que eu estava olhando quando chorava. Insisto.
- Fingimento
- Pior ainda, respondo com raiva dela.
Desligo e me vem a sensação de que aquela, que eu pensava ser amiga, é mais fria do que a noite lá fora.
Miséria, miséria humana.
Escrito por Rail às 16h21
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