O pavão e a bunda da Yara
Há muitos anos fui obrigada a me desfazer do casal de pavões que enfeitava o meu jardim e protegia a minha casa, com o som de corneta que soltavam, quando alguém se aproximava do lado de fora do muro que a cercava.
Na época coloquei anúncio no jornal por um preço bem absurdo, na esperança que não aparecesse ninguém para comprar.
Doce ilusão. Não é que surge em minha casa, um senhor que se apresentou como um feliz interessado.
Foi logo me contado que era coronel e hindu, o que aliás sua aparência não negava, e que tinha fortes recordações de sua infância na Índia, onde seu divertimento era caçar e seu prazer era comer pavões.
-Minha filha está morando no Morumbi, sua casa tem uma enorme área verde e eu gostaria muito de poder presenteá-la neste Natal com o casal de pavões, assim poderei reviver minha infância e curtir os animais que ficarão na casa dela.
-O senhor tem certeza que não vai colocá-los na panela e serví-los na ceia? Pergunto apreensiva.
-Minha senhora, fique tranqüila, por este preço não dá para comê-los!
A venda foi efetuada, pagamento em dólar e entrega imediata.
Numa infeliz coincidência, assim que o Coronel sai, chega em casa Yara, minha grande amiga, linda e desvairada, chorando.
Eu ainda, sem poder me recuperar da perda, tenho que ouvir:
-Abigail, você nem pode imaginar o que aconteceu. Uma tragédia.
-Pelo amor de Deus! Diga logo. -Imagine que ontem fui transar com aquele homem maravilhoso, que venho saindo há tempos e quando fui tomar banho, depois do ato consumado é que reparei que eu estava com uma espinha na bunda.
Escrito por Rail às 19h32
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
-Você está brincando, não é? Como pode uma mulher tão bonita e inteligente ficar tão burra numa situação como esta? Você deveria ter conhecido o meu pavão.
-O que?
-O meu casal de pavão, oras, que ficavam soltos perambulando pelo jardim.
Eu adorava ficar olhando a dança do pavão ao redor da pavoa, com seu rabo de penas azul e verde cintilante, se abrir na forma de um leque, tremer, fazendo soar o som do acasalamento. Ele todo garboso, formoso, com a cabeça altiva, orgulhoso, em nenhum momento olhava para os seus pés que são muito feios.
-Você está comparando o rabo do pavão com a minha bunda?
-Esta é a grande diferença, minha amiga. O macho exibe sua beleza, não dá bola ou esconde os seus defeitos, enquanto nós mulheres somos peritas em apontar nossas possíveis incorreções e nem percebemos a nossa real lindeza.
-Abigail, continuo arrasada com o meu fiasco.
-Não se preocupe querida você como a maioria de nós mulheres, casamos com aquilo que nos atrai e passamos o resto da vida apontado para os pés de nossos pavões. E pior ainda, ensinamos nossos parceiros a verem os defeitos nas outras mulheres, mesmo que para isso tenhamos que dar uma aula sobre estrias ou celulite, assuntos que para eles não fazem a mínima diferença.
-Mas e se ele reparou na minha espinha?
-Com certeza nunca mais irá olhar ou desejar você.
-Jura? ela insiste
-Já ouviu falar em ironia? respondo
Mais anos se passaram. Yara, numa das tardes de jogar conversa fora, num café próximo a minha casa, volta a chorar.
-O que aconteceu, querida?
-Amiga, que tristeza. Agora me dou conta de como eu era bonita e não sabia.
-Infelizmente só percebemos isso quando envelhecemos.
Natal chegando e mais uma vez eu fico pensando que fim levou o meu pavão.
Escrito por Rail às 19h31
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]
|